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Carnaval | Você sabe quanto custa um bloco de rua?

Se curtir o Carnaval em Salvador para os foliões já custa um bom investimento, imagine para aqueles que participam da produção da festa de rua mais popular do planeta

“A brincadeira não é barata, não”. Com essas palavras, o coordenador do Carnaval 2018, Paulo Leal, define bem uma realidade: a dos blocos que desfilam na folia. Entre custos com cachês de artistas, empresa de segurança, cordeiros, trio elétrico e taxas, surgem cifras milionárias.

Hoje, um bloco comercial que desfila com uma boa infraestrutura e que traz um artista renomado não sai por menos de R$ 1 milhão.

“Mas você pode ter um bloco com orçamento a partir de R$ 500 mil, como pode ter um orçamento de R$ 3, 4, 5 milhões para botar na rua. Os valores variam muito. Esses bloquinhos que saem na quarta-feira de Carnaval (no circuito Sérgio Bezerra) saem com orçamentos mínimos”, explica o proprietário da Central do Carnaval, Joaquim Nery.

O Jornal CORREIO apurou o orçamento completo de um bloco que desfilará este ano no circuito Barra-Ondina (Dodô) com cinco mil associados – número máximo permitido.

A pedido dos donos do bloco, o nome da agremiação não será divulgado, nem das empresas contratadas. O valor chega a R$ 1,6 milhão, incluindo custo de produção dos abadás e aluguel da loja física para vendas.

(Foto: Arte/CORREIO)

Para ajudar a fechar essa equação, o bloco terá pelo menos dois patrocinadores – cada um tem uma cota de R$ 400 mil. Outros apoiadores de serviços trocam mão de obra por divulgação.

Um dos maiores patrocinadores dos blocos é justamente a Skol – que também é uma das apoiadoras oficiais do Carnaval. Este ano, a empresa já fechou com cinco blocos: Camaleão, Vumbora, Nana, Banana Coral e Inter além de quatro camarotes (Casa Skol, Camarote Skol Beats, Camarote Nana, Camarote Planeta Band).

“A intenção do patrocínio é estar mais perto do público, proporcionar uma experiência bacana”, diz a diretora de marketing da Skol, Maria Fernanda de Albuquerque. Ela não quis entrar em detalhes sobre os valores.

Afro e afoxés
Entre os blocos afro, os números das despesas são parecidos. De acordo com Vovô do Ilê, presidente do Ilê Ayê, o orçamento fica entre R$ 1 milhão e R$ 1,5 milhão. No caso do Ilê, a agremiação recebe o aporte de R$ 300 mil do governo do estado, através do edital do Carnaval Ouro Negro, além de outros R$ 150 mil de patrocínio da Bahiagás.

“Infelizmente, o apoio ainda é muito pouco. Hoje, o Carnaval é negócio. Todo mundo pensa que a gente de bloco está rico, mas quem está rico mesmo é sindicato de cordeiros, dono de trio, empresa de segurança, pessoal de agência. Infelizmente, as pessoas não acham que bloco afro é investimento, que muito turista que consome em Salvador vem pelos blocos afro”, diz Vovô do Ilê.

Segundo Vovô, o bloco ainda tem dívidas da folia passada. O cachê da banda ainda está sendo pago, enquanto o trio elétrico e os tecidos só foram totalmente quitados no fim do ano passado. “O Carnaval está precisando ser repensado”, defende.

É o mesmo caso dos Filhos de Gandhy, que saem com cerca de cinco mil associados. Ainda que prefira não falar em números, o presidente do afoxé, Gilsoney de Oliveira, confirma que ainda tem dívidas do ano passado.

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Em 2018, o Gandhy também deve receber R$ 300 mil do Carnaval Ouro Negro, de acordo com a portaria publicada na semana passada. Só que, para colocar o bloco na rua, ele ainda estima que falte um montante entre R$ 800 mil e R$ 900 mil.

“Temos uma conta a pagar, não pode ficar só na parte da cultura, tem que ter o olhar mais amplo na questão dos blocos afro e dos afoxés, porque eles representam a cidade e o estado para o mundo”. As fantasias do bloco saem por R$ 600 para sócios novos e R$ 500 para antigos.

Ao todo, o governo do estado investiu pouco mais de R$ 6,3 milhões para mais de 90 blocos e afoxés com o Carnaval do Ouro Negro. Procurada, a Secretaria de Cultura do Estado (Secult) explicou que as informações sobre o Carnaval serão divulgadas em uma entrevista coletiva.

Já a Empresa Salvador Turismo (Saltur) confirmou que apoia blocos e entidades culturais de “matriz africana, afro, afoxé, reggae, hip hop, samba e tradicionais”, mas só vai divulgar o valor do investimento e as entidades selecionadas em uma entrevista coletiva na próxima semana.

Além disso, a Saltur afirma que as entidades de blocos carnavalescos ou folclóricos reconhecidos como clubes culturais, legalmente reconhecidos como entidades associativas sem fins lucrativos e de interesse social, estão isentas do pagamento do Imposto Sobre Serviços de Qualquer Natureza (ISS) e da Taxa de Licença para Exploração de Atividade em Logradouro Público (TLP).

Balanço
Embora os números de 2018 ainda não estejam disponíveis, houve uma queda no número de agremiações entre 2016 e 2017. Só na Barra, em 2016, saíram 147 blocos, enquanto em 2017 foram 130.No Campo Grande, de 227 em 2016 passaram para 194, no ano seguinte.

O único circuito onde houve aumento foi o Batatinha (Centro Histórico) – de 119 há dois anos para 124 no ano passado. Ainda assim, o saldo total não é positivo: de 489 em 2016 para 448 em 2017.

Esses números não incluem as atrações que desfilam no Furdunço, que chegou a ter mais de 30 nomes por edição.

Um dos que anunciou ausência na festa deste ano é o bloco Pagode Total, que desfilava no Carnaval há 17 anos. O bloco sairia com o grupo É o Tchan no Campo Grande na quinta-feira de Carnaval e culpou a “crise financeira que atinge o país” e “a falta de recursos para o pagamento de seguranças, cordeiros, camisas, trio, iluminação e taxas essenciais.

“Quem não tem conseguido sair são os blocos alternativos, porque a brincadeira é cara. Trio, artista, aí vem patrocínio que muitos não estão achando”, afirma Leal.

Como criar um bloco
Não é difícil colocar seu bloco na rua. Do bloco mais antigo – Os Internacionais, hoje Inter – até o mais novo – uma agremiação para deficientes visuais – todos tiveram que passar por um processo no Conselho Municipal do Carnaval (Comcar).

Primeiro, não é uma coisa rápida, nem de última hora. Não é mais possível, por exemplo, colocar um bloco na rua agora ainda para o Carnaval deste ano, de acordo com o coordenador do Carnaval 2018, Paulo Leal.

“O Comcar exige um prazo com datas e para apresentar uma documentação. Quando acaba o Carnaval, você já pode inscrever com os trâmites”. É preciso apresentar CNPJ e registro do contrato social da empresa.

Os blocos que forem aprovados são uma portaria que costuma ser publicada ainda no ano anterior ao Carnaval.

Carnaval e negócio
As festas populares, incluindo o Carnaval, vão movimentar R$ 3,9 bilhões na cidade, só no primeiro trimestre de 2018. A estimativa é da Secretaria Municipal de Cultura e Turismo (Secult), que também aguarda por 2,5 milhões de turistas na cidade somente entre janeiro e fevereiro.

O setor hoteleiro espera, ainda de acordo com a Secult, ocupar pelo menos 70% dos cerca de 40 mil leitos neste mês e em fevereiro – a expectativa é de que todos os leitos sejam ocupados no Carnaval. Em lugares mais afastados dos circuitos, onde os leitos costumam ser mais comerciais, a exemplo da Tancredo Neves, a expectativa de ocupação é de 80%.

Fonte: Correio da Bahia

Thaís Muniz

Goianiense de sangue e baiana de coração. Sempre foi apaixonada por Salvador e sua cultura única, onde pulou muitos carnavais. Jornalista e leitora assídua, busca usar o jornalismo em prol do entretenimento e cultura. E nas horas vagas arrisca em escrever algumas histórias.


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