07/08/2020 Salvador26°C

Jovens negros baianos falam sobre racismo, luta por igualdade e muito mais

Três jovens baianos, residentes em Salvador, falam sobre os acontecimentos no mundo em relação aos negros, os desdobramentos no Brasil, o que pensam como uma luta importante do seu povo, bem como os sonhos para si e de uma sociedade como um todo

Os recentes protestos pelo mundo contra o racismo e o abuso de autoridade policial, têm gerado um maior debate social sobre privilégio “branco” e a busca por igualdade da população negra, além de escancarar todo o preconceito enraizado na sociedade. Analisando este tema tão precípuo, convidamos os jovens Átina Batista, Edcarlos Cabral e Samila Victória, para emitirem suas visões acerca de tudo isso.

 

1- Como negros, baianos e brasileiros, de que forma enxergam a sociedade em relação aos negros?

Átina: A nossa sociedade é racista; ainda precisamos avançar muito no conhecimento das causas. O racismo em nossa sociedade é enraizado e precisamos desconstruir isso, eu digo que é enraizado por conta de nosso passado histórico, que reflete em toda questão racial atualmente. Avançamos pouco, somos minoria na TV, minoria em algumas empresas, minoria na mídia em si, mas tem algo que me motiva bastante e faz acreditar nesse avanço: os negros são maioria nas universidades públicas. Porém, ainda temos poucos espaços na sociedade em si.

Edcarlos: É muito complexo falar como é ser negro em nossa sociedade. Ser negro brasileiro e baiano é muito além de identidade, sabemos que o racismo está completamente em tudo, seja ele estrutural, seja ele institucional, em nossas relações sociais e interpessoais. A questão não é ser negro, a questão é como ser negro em uma sociedade racista. Eu enxergo que estou sempre um passo atrás de tudo e que sempre tenho que lutar 10 vezes mais para conquistar algo. Então eu digo que enxergo uma grande sociedade que precisa de retratação política, filosófica e social.

Samila: A música “Negro Drama” de Racionais, retrata o como que o negro é visto na sociedade contemporânea, de forma criminalizada e abaixo de uma “hierarquia” – que o domínio é de pessoas brancas. Infelizmente, essa é a realidade do Brasil, onde pessoas negras e periféricas têm que lutar dez vezes mais para conquistar seus sonhos, isso tudo é fruto do racismo estrutural. Mano Brown diz que ver negro e pobre, preso ou morto já é cultural, isso tudo porque o racismo já está naturalizado. Então, as pessoas pretas são pré-julgadas como impotentes, fracas, marginalizadas. Sendo assim, é de extrema necessidade mudanças nessa sociedade.

Samila Victória

2- Vocês se sentem representados pelas manifestações contra o racismo nos Estados Unidos? Por que aqui no Brasil o nível das manifestações é bem mais fraco?

Samila: Com certeza, as manifestações nos Estados Unidos representam que a população negra daquele país chegou ao seu limite de paciência, após tantos anos de racismo explícito em agressões verbais ou físicas. Em contraste, no Brasil as manifestações em relação ao racismo são de maneira fraca, primeiro por causa da naturalização do racismo, muitas pessoas acham que não existe o preconceito racial e se existe é em pouca ocorrência. Além disso, por causa da acomodação das pessoas (em sua maioria), e isso não acontece porque o Brasil é um país onde o racismo não é explícito e sim porque a maioria dos cidadãos não tem a atenção devida para os problemas sociais.

Átina: Sinto-me representada em partes, primeiro, porque chegou aqui no Brasil e eu sinto que a gente quer falar mais sobre isso, tem gente querendo aprender, a gente está vendo a mídia “atenta” à causa. Segundo, porque a gente precisou esperar o levante de outro país para se ligar em algo que acontece no Brasil desde 1500!? Acredito que a gente pode se levantar e fazer a nossa manifestação, a gente precisa de visibilidade, até porque além do genocídio da população preta, a gente tem a falta de visibilidade na mídia, nos espaços públicos, etc.
Eu acredito que aqui no Brasil a gente precise de mais atenção fora de rede social, todo mundo querendo aprender  não só em YouTube, Instagram e afins. As redes ajudam muito, bastante, mas precisamos reagir, mostrar que também temos força fora das redes. A gente precisa de incentivo e acho que depois dessas manifestações nos EUA, a gente aprendeu o que deveríamos ter aprendido há anos.

Edcarlos: Sim, me sinto representado pelas manifestações nos Estados Unidos. Vejo o movimento negro como uma luta de todos, se não houver união principalmente com pessoas negras, será uma luta sem sentindo nenhum. Juntos, todos os negros são mais fortes. A questão em que as manifestações no Brasil são bem mais fracas é por uma questão de educação e consciência. Vejo o Brasil como um país onde pessoas ainda são carentes de certos tipos de conhecimento, principalmente político, o que gera um efeito enorme diretamente em nossas causas sociais. Pessoas ainda faltam ter mais conscientização sobre gênero, sexualidade, raça, política e relações geográficas.

Edcarlos Cabral

3- Qual a importância das redes sociais no combate ao racismo?

Edcarlos: Vejo as redes sociais como uma fonte de conhecimento e levando em conta o avanço tecnológico, usadas de maneira correta, tornam-se um dos maiores aliados de toda causa filosófica, política e social. Muitas pessoas usam suas redes pessoais ou públicas para interagir, trazer e abordar assuntos importantes, fazer com que pessoas questionem os seus posicionamentos e ideologias.

Samila: Com o avanço da tecnologia, a internet e as redes sociais se tornaram uma boa plataforma de discussões sobre os problemas atuais, inclusive, o racismo. Nas redes sociais, acontece uma divulgação de conhecimento e opiniões, que com certeza é muito importante. Entretanto, a população precisa sair um pouco da internet e combater o racismo na prática – não que a internet não seja importante, mas que a mudança individual das atitudes de cada pessoa transforma a nação. Isso vai de encontro com a frase do jornalista George Shaw, quando ele cita que o processo é impossível sem mudança e aqueles que não conseguem mudar as suas mentes não conseguem mudar nada. Os indivíduos precisam se organizar e lutar contra o racismo, através da pesquisa de métodos e práticas.

 

4- A luta da população negra por igualdade e reconhecimento é necessária, humana e urgente. O que é preciso ser feito para que a sociedade alcance essa igualdade e reconhecimento da população negra? E qual o papel do “branco” nesta batalha? Como ele deve participar de fato?

Átina: A gente precisa de equidade, é um conceito que vai abranger a todos. Igualdade sempre deixa aqui e ali sem algum benefício, então equidade é o que devemos pregar. Primeiro, o conhecimento é a base para toda luta dar certo, estudar conceitos, rever erros, escutar a minoria, empoderar e manifestar quando algo for grave e tiver errado na sociedade, sabendo que manifestar não é só ir às ruas, precisamos entender isso também.

Os “brancos” precisam reconhecer seus privilégios na sociedade, entender a causa também e ouvir pessoas pretas, ler livros de pessoas pretas, consumir conteúdos de pessoas pretas, trabalhos e afins. Acredito que os “brancos” precisam também questionar dentro das empresas o porquê de não ter um preto ali, se for dono de empresa, colocar na sua equipe pessoas pretas. Corrigir termos racistas e alertar sobre as piadinhas racistas na roda dos amigos “brancos”. Há muitas coisas que pessoas “brancas” podem fazer, óbvio que reconhecendo o seu local de fala.

Edcarlos: Acho que a maior engrenagem para promover a igualdade e reconhecimento é a representatividade, pessoas negras ocupando e tendo visibilidade gera uma grande revolução, mais negros na política, mais negros em faculdades. Mas para isso tudo, precisamos de acesso, acesso à uma rede de ensino de qualidade, uma reparação nas nossas instituições, principalmente as públicas.

O papel do branco é fundamental para a conquista da luta antirracista, brancos precisam desconstruir muitas coisas, e para isso precisam assumir seus privilégios, precisam assumir que de fato são ou já foram racistas. O problema da inclusão dos brancos no movimento negro é que muitos acabam tirando o nosso protagonismo, então eu digo que o principal papel do branco é estudar e ensinar os seus, reconhecer até onde vai o seu lugar de fala. De fato os negros sofrem racismo, nós apontamos onde acontece ou não, pessoas brancas são nossos apoiadores e não questionadores.

Átina Santos

5- Quais os desafios que almejam para suas vidas? 

Átina: Pretendo cursar direito na faculdade, escrever livros e fundar algum projeto que ajude a população preta. Eu espero que daqui para o futuro a gente consiga ser uma sociedade bem desenvolvida no conhecimento e eu quero fazer parte desse desenvolvimento, ajudando as pessoas que são desfavorecidas. Espero que profissionalmente eu consiga ser bem visível e consiga motivar outras pessoas, espero ser mais uma inspiração preta dentro de tantas outras que existem. Quero que a geração sucessora, que irá crescer, tenha mais representatividade.

 

Edcarlos: Meu maior desafio é superar toda a minha realidade, socialmente fazer com que pessoas perto a mim tenha questionamentos sobre suas ações, profissionalmente almejo superar toda carência de não ter um ensino de qualidade, conquistar acesso ao ensino superior e estudar um curso onde pretendo muito ajudar os meus, almejo ser um bom advogado.

Samila: No momento o principal desafio que eu estou enfrentando, é a minha inclusão na Universidade Pública. Quero ingressar no curso de Direito, ajudar o meu povo, que muitas vezes são acusados injustamente, por causa do racismo que está presente na sociedade.

 

6- Ser negro é ser…

Átina: Ser negro é ser forte, humilde, inteligente para enfrentar a sociedade racista e driblar as estatísticas. Ser negro é ser incrível, empoderado e reconhecer que de fato a gente pode muito mais do que imaginamos.

Edcarlos: Ser negro é não abaixar a cabeça, ser negro é correr mais rápido para alcançar o meu reconhecimento, é lutar 10 vezes mais para construir meus sonhos, ser negro é ter poder, o meu povo sofreu 500 anos para que eu chegasse até aqui, eu digo que ser negro é a melhor coisa que eu poderia ser.

Samila: Forte, resiliente, sentir a dor do seu povo e querer de todas as formas mudar o sistema.

Abaixo algumas páginas pró valorização do negro na sociedade e a  luta por igualdade racial:

 

Foto no topo da página: Gibran Mendes

 

 

 

 

Carlos Sena

Sou Soteropolitano, Relações Públicas de formação, Político de opinião, Cervejeiro apaixonado por futebol e Pimenteiro como bom Baiano.


Deixe um comentário

Seu endereço de e-mail não será publicado. Campos obrigatórios são marcados com *

quatro × um =


Sobre o Nosso Auê

Somos um novo portal que tem como objetivo compartilhar a cidade de Salvador, mostrar novos lugares, desbravar inúmeros cantinhos e sobretudo, conectar histórias! A vida lá fora é mágica e nós vamos desfrutar a nossa cidade junto com você, vamos fazer o Nosso Auê!


WhatsApp: (71) 98836-3724

contato@nossoaue.com

Rua Fernando José Guimarães Rocha, 35, Imbuí. Salvador – Bahia

© Copyright Nosso Auê 2020. Todos os direitos reservados